O universo em expansão de Rubber Vall,
por Hermano Vianna
A literatura de Toinho Castro é um universo em expansão. Expansão vertiginosamente veloz. Seu primeiro livro, Imbiribeira, foi a descrição densíssima de apenas um pequeno bairro do Recife, um labirinto de detalhes de local “mínimo, sem charme, impermanente”. Nada existe, o lançamento seguinte, como um foguete, deu salto para toda a cidade e seu “Cinturão das Almas”. Agora, com Rubber Vall, vamos para os confins do universo, ou talvez do multiverso.
O Roberval adolescente de Imbiribeira se expande no protagonista astronauta de Rubber Vall. As pontes que antecedem e vão sobreviver (“E ninguém desconfiará que ali, agarradas àquelas pontes, havia uma cidade”) à urbanização do Recife vão se expandir e “vagar pelo universo” deste livro agora, “para além da Perspectiva de Oreana”, como “passagens para dimensões paralelas e desconhecidas” ou “surgindo do nada e desaparecendo no vazio”. Portanto: expansão “inapreensível” em ritmo desconcertante, capaz de conectar o melhor do provinciano com o cósmico absoluto.
Também em comum nas três obras: primeiro, uma mesma – ainda que flutuante – turma de personagens, com relações de amizade que enfrentam desafios temporais (infância, juventude, precária maioridade etc.) e aventuras geográficas multidimensionais, como se vivessem num Sítio do Picapau Amarelo pós-cyberpunk ou pós-mangue-bit (onde, por exemplo, o “inventor” Luisinho seria um Visconde de Sabugosa em regime quântico ou alquímico).
Há igualmente uma militante confusão entre realismo, sonho e poesia, que produz um experimento literário extremamente original/pessoal, algo bem único – e mesmo OVNI – no panorama brasileiro ou mundial. Pode parecer de ficção científica a autoficção, mas é outra coisa, ou várias outras coisas ao mesmo tempo, estilo (ponte?) ainda sem nome ou que nunca vai ter nome, de tão único que é.
São muitas mudanças súbitas e surpreendentes de registros (os motores da astronave de Rubber Vall “rugiam alimentados por plasma, dados e histórias de fadas”), que podem ser entendidas como operações fractais, nas quais o micro contém todas as informações do macro, e vice-versa. O que está em cima é exatamente o que está embaixo, em qualquer lugar: nas duas galáxias conhecidas como Nuvens de Magalhães ou na Torre Malakoff, hoje ponto turístico no Recife Antigo.
Mais importante: há uma atitude (digamos assim: filosófica) comum que compõe a visão de mundo/vida na literatura de Toinho Castro. Tudo bem docemente trágico: o “mínimo” como remédio/veneno para suportar a desolação do máximo. Em Nada existe, penso que é possível identificar uma definição de literatura (ou do sentido da vida) como produção de conhecimento. Conhecer para quê? Não para “compreender”, mas para “enveredar”. Sem nunca dar no fundo das coisas, ou dos caminhos, ou dos sonhos/realidades.
Existe ou não existe? “Esse negócio de existir é uma confusão danada.” E mesmo a mais rigorosa investigação, literária ou científica ou onírica, medida com o metro quadrado de um bairro recifense ou com o ano-luz de uma viagem intergaláctica, talvez nos revele apenas que as veredas são territórios de “escombros”, “destroços” ou “ruínas”: “não sei se há vida no universo, mas havia.” É um “universo abandonado”: “A sensação é que nós, seres humanos, fomos os únicos a não saber do aviso de fuga. É como se tivéssemos sido deixados para trás.”
Diante de tais constatações sombrias, desse abandono metafísico, este livro seria como uma máquina de Luisinho, sempre “inútil”? É preciso não esquecer: inútil, mas envereda. Segue adiante, fugindo para frente. Faz voar rápido, expansivamente, com sistemas de radares e navegação, os “mais modernos e eficientes, além de poéticos”. Para que o que não existe passe a existir. Com “função qualquer”. Apenas para produzir “ilusão cosmológica” e estoica beleza. Ou somente para que “a ordem do cosmo” finalmente “se sujeite às nossas malandragens”. Malandragens da imaginação, tão recifense/brasileira e tão universal, de Toinho Castro.
Rubber Vall: Origens,
por Toinho Castro
Rubber Val nasceu muitos anos atrás, numa internet discada, lenta e deveras interessante; um território novo, onde tudo parecia estar acontecendo pela primeira vez. A maior parte desses textos foi publicada no Fotolog, uma rede ancestral do Instagram, para ilustrar minhas colagens digitais sobre a aventura espacial de um herói suburbano pelas plagas do espaço sideral. Imagens que eu criava, muitas vezes, me apropriando dos trabalhos alheios publicados na rede, de gente que eu seguia, de amizades que fui encontrando ao longo do percurso. Gente do mundo todo acompanhava as aventuras do Rubber Vall.
Abaixo, uma seleção das imagens publicadas no Fotolog, pelo menos a maioria delas. A cada uma dessas imagens, publicadas cotidianamente na rede, tinha uma pequena história associada. E foram essas historietas que evoluíram para formar o livro. Muitas imagens se perderam com os anos, sobretudo as montagens originais, os arquivos de trabalho do Photoshop; mas o que restou ainda conta muito dessa história.
Deixo aqui minha imensa gratidão às pessoas que conviveram comigo ao longo da jornada de Rubber Vall, no Fotolog e nas outras redes em que a história se projetou. São muitas amizades ao redor do mundo; nomeá-las seria arriscar esquecer de nomes que não deveriam ser esquecidos. Qualquer pessoa dessa turma a quem chegue a notícia deste livro, saiba que está contemplada no amor que move Rubber Vall pelas estrelas.
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